Enviado por: meoli
CANTO . . . Marisa não lembra há quanto tempo canta. Sabe-se que, aos 14 anos, começou a estudar canto lírico. Antes disso, tinha participado de uma montagem teatral no Colégio Andrews (“Rock Horror Show”), fez shows pop com amigos (no circuito carioca do Viro do Ipiranga/ Manga Rosa/ Robin Hood/ Jazzmania/ Double Dose etc), gravou fitas demo, foi backing da banda Laranja da Terra (rock), não perdeu um show da fase áurea do Morro da Urca (Blitz, Ritce, Lobão, Lul Santos et al). Já gostando de Maria Callas, de Bllie Holiday, Marisa era parte da geração que assistiu ao nascimento do BRock. Fez vestibular para a Escola Nacional de Música, com prova de habilidade específica e tudo. “O estudo clássico, para mim, era uma maneira de exercitar afinação, respiração, extensão etc. Era a única técnica disponível.”
PAI . . . Carlos Monte, pai de Marisa, foi um dos diretores da Portela no começo dos anos 70. Hoje, no Portelão, o nome dele está numa placa de bronze na parede. “Está escrito: ‘Homenagem aos portelenses que ajudaram a construir o Portelão’. Aí, tem uma relação de nomes, o dele está lá”, conta ela.
CONVITE . . . Enquanto fazia o circuito da noite carioca do comecinho dos anos 80, atuando em diferentes papéis na cena pop, Marisa chegou a chamar a atenção da indústria. Aos 16 anos, ela recebeu um convite de Roberto Menescal, então diretor artístico da PolyGram, para gravar o que poderia ter sido seu primeiro disco. Ela recusou, não só por achar que ainda não tinha um trabalho para registrar como também por já ter decidido estudar canto na Itália.
BIJOUX . . .Sócia do artista plástico Jeff Svoboda, Marisa foi dona de uma confecção de acessórios femininos. Fazia bolsas, cintos, agendas e demais adereços de couro; fazia prendedores de cabelo, brincos e anéis com materiais tão prosaicos quanto fusíveis, velhos botões de casacos de brechó e olhos de bichos de pelúcia. A empresa, que funcionava numa sala alugada na Lapa, no Rio, vizinha de travestis, deu certo. Sobreviveu até ao Plano Cruzado. “Inventávamos as peças e levávamos o mostruário a lugares como a Company, a Yes Brazil, e eles compravam tipo ‘duzentos deste, trezentos daquele’. O custo era baixíssimo, tanto que vendíamos com uma margem absurda e ainda assim era muito barato”. A empresa nunca teve nome e acabou quando ela começou a cantar a sério. Marisa usa algumas das peças que criou até hoje.
MÃE . . ."Aprendi a costurar cedo, e minha mãe sempre me dava o que fazer em casa, coisas para dar de presente no Natal, assim”. Numa casa cheia de mulheres (além das irmãs Marisa, Letícia e Lívia, havia empregadas, parentes etc), os chamados “dotes femininos” eram cultivados e passados à frente cuidado. E não só isso: Letícia estudava piano, Marisa, canto. “Um dia, a professora de canto, Dona Alda, chamou minha mãe e disse: ‘Os espíritas podem explicar isso, eu não’”. Foi Sílvia que deu a Marisa seu primeiro instrumento musical, uma bateria, quando ela tinha 9 anos. E ela aprendeu ritmos tão variados quanto fox e baião com o professor Sut Chagas.
ITÁLIA . . .Morando na Europa, em 1986, Marisa conta que viu o Brasil de fora, ou antes, se viu “fora do Brasil”. Essa situação a levou a um encontro curioso com a cultura nacional. ”Só ouvia música brasileira”, lembra. “Tinha vários amigos que faziam shows na noite, em Roma, e cantava com eles. Enquanto explodia o BRock no país, Marisa ouvia e estudava ópera; ao mesmo tempo, cantava Djavan, Caetano, Milton e Gil nos palquinhos da Itália.
SAUDADE . . .A saudade do Brasil bateu lá por volta dos dez meses longe. Marisa tinha viajado para estudar canto lírico, para sair fora, para “ver qual é”. A devoção ao estudo clássico foi a primeira a cair. “Como forma de expressão única, aquela não bastava para mim. Tem o anacronismo da técnica, vinda de um mundo pré-microfone. Eu até curtia, mas sentia falta da produção contemporânea".
NELSINHO . . . A caminho de Roma, Marisa procurou um amigo de sua mãe, Nelson Motta. Ele lhe deu dicas de pessoas e lugares. “Conheci jornalistas, músicos, gente superinteressante”. Alguns meses depois, meio por acaso, meio sem querer querendo, Nelsinho assistiu a um pocket show dela, num barzinho lotado, em Veneza. Na volta ao Brasil, logo no primeiro mês, Marisa deu show no Jazzmania, produzida pela irmã Lívia e acompanhada de perto por Lula Buarque de Hollanda, namorado da irmã Letícia. Nelsinho esteve na platéia. Era o começo de uma bela amizade.
VANGUARDA . . . Em palcos de diferentes tamanhos, Marisa já passou por tudo. Incluindo um show de música contemporânea no Museu de Arte Moderna do Rio. O espetáculo, assinado por Luigi Irlandini, consistia apenas em Marisa cantando uma única nota, a letra em sânscrito, acompanhada por um instrumento que fundia cano de PVC com corneta de chifre de boi. O show, patrocinado por uma empresa de petróleo, teve Hans-Joachin Koellreuter na platéia e foi descrito em crítica laudatória como uma proposta de “fusão das músicas oriental e ocidental, erudita e popular”.
URCA . . . A casa da família de Marisa, na Urca, foi palco de ensaios de variadas bandas. A trupe do Andrews ensaiou muito “Rock Horror Show” lá. As diversas bandas que a acompanharam, antes e depois da Itália, também. Para as primeiras apresentações na volta da Europa, o grupo ensaiava tocando na sala do apartamento da familia, de frente para o Quadrado da Urca, um pedaço de baía fechado como porto de pequenos barcos. Juntava gente para ver, com alguns mais entusiasmados pedindo as preferidas. “Toca a da sereia!”, diziam.
VOLTA . . . Chegando da Itália, Marisa lembra que estava muito curiosa pela música brasileira. Voltou a estudar na Escola Nacional de Música começou a percorrer sebos, catar o acervo da Funarte, do MIS, de selos pequenos, antigos, procurava velhas coleções, inclusive as da família. Ouvia, ouvia e ouvia o que conseguisse encontrar, e fazia shows cantando Marvin Gaye e Kurt Weil, mais Tim Maia, Assis Valente, Lupicínio, Lamartine, Pixinguinha, Gil etc. O que ela fazia era dar pequenos shows para uma platéia de parentes e amigos". E começou a aparecer o perfil de “ouvinte eclética”.
ESTRÉIA . . . Para o primeiro grande show, de verdade, com Nelsinho e Lula Buarque de Hollanda na produção, com um repertório de coisas que Marisa “gostava de ouvir”, foram meses de ensaio. “Aprendi isso: tempo e trabalho andam juntos. Trabalhamos muito os arranjos, as formas, as harmonias.” Aconteceu no Jazzmania, seguiram-se outras casas, no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, cada vez maiores, sempre lotadas.“Foi a primeira vez que fiz um trabalho meu, mesmo. Nunca tinha me relacionado com o público, a imprensa e os músicos daquela maneira, não sabia bem o que fazer. Senti que tinha o direito de aprender na prática e aos poucos, de uma forma natural e artesanal. E ninguém me pressionou, nem Lula nem Nelsinho.”
MM . . . Um ano depois daquela noite inaugural no Jazzmania, o sucesso do show trouxe um convite da Rede Manchete para fazer um especial, o que foi aceito, com uma condição: tinha que ser em cinema. Lula e Nelsinho chamaram Walter Salles (“eu nem o conhecia pessoalmente”, conta Marisa) para a direção, conseguiram patrocínio através de um amigo, e perceberam que precisavam de uma parceria para gravar o som do jeito que tinha que ser, em 24 canais. Finalmente, foi escolhida uma gravadora, a Emi-Odeon. “Eu não tinha visão industrial da coisa, nesse momento quem mais influiu foi o Nelsinho". Não exigiram nada além da gravação do trabalho,Marisa chegou a recusar qualquer adiantamento. A trilha daquele espetáculo, com alguns retoques no estúdio, transformou-se em “MM”, o disco.
HIT . . . Tentando emplacar uma faixa do primeiro disco na trilha de alguma novela, Nelsinho procurou Mariozinho Rocha, na Rede Globo. Ofereceu “Bem que se quis”, versão dele para uma canção do italiano Pino Daniele, “E po che fà”. Foi recusada. Nisso, a atriz Lúcia Verissimo pediu a Marina Lima uma música para sua personagem justamente numa das novelas da Globo. Marina, sem música a mostrar naquele momento, sugeriu que Lúcia procurasse Nelsinho e Marisa. “Bem que se quis” entrou na trilha de “O Salvador da Pátria”, novela das 20h da Rede Globo, um mês antes da chegada do disco às lojas, pelas mãos de Lúcia Verissimo.
ARTO . . . Estudando cinema em Nova York, Lula Buarque tinha deixado Marisa com seu novo empresário, Leonardo Netto, e enviava cartas "contando o que estava acontecendo. Foi assim que começou a ser levantada a ponte entre Marisa e aquilo que se convencionou chamar "circuito internacional. "Foi Lula quem levou meu disco para o Arto", conta ela, "ficou fazendo minha cabeça, me falando dele. Nunca tinha feito um disco de estúdio, queria um produtor para isso. Tinha que fazer um segundo disco, não tinha intimidade com estúdios, nunca tinha trabalhado com um repertório inédito... depois do sucesso do primeiro, tinha muita expectativa... eu sabia que tinha que conquistar muita coisa..." E assim Arto Lindsay entrou nessa história.
ARNALDO . . . Em temporada paulista, Marisa apresentava no Aeroanta o espetáculo que viria a se transformar em “MM”. Trabalhar com o cabeça pensante Arnaldo Antunes era sonho de fã e, numa daquelas noites, Lula Buarque convidou os Titãs. Arnaldo apareceu e ele aproveitou para armar o encontro, dizendo para Marisa que o poeta tinha combinado subir ao palco para uma canja assim que fosse chamado. Era mentira. “Na hora de cantar ’Comida’, chamei ’Arnaaaldooo.... Arnaaaldooo...’ Imagina, eu chamando alguém que nem conhecia... Não passava pela minha cabeça que Lula podia estar blefando”.Arnaldo subiu, cantou e desceu do palco íntimo de Marisa. Viraram parceiros.
ARNALDO . . . Em temporada paulista, Marisa apresentava no Aeroanta o espetáculo que viria a se transformar em “MM”. Trabalhar com o cabeça pensante Arnaldo Antunes era sonho de fã e, numa daquelas noites, Lula Buarque convidou os Titãs. Arnaldo apareceu e ele aproveitou para armar o encontro, dizendo para Marisa que o poeta tinha combinado subir ao palco para uma canja assim que fosse chamado. Era mentira. “Na hora de cantar ’Comida’, chamei ’Arnaaaldooo.... Arnaaaldooo...’ Imagina, eu chamando alguém que nem conhecia... Não passava pela minha cabeça que Lula podia estar blefando”.Arnaldo subiu, cantou e desceu do palco íntimo de Marisa. Viraram parceiros.
COMPOSITORA . . . Na memória mais distante, Marisa conta que começou a compor ainda criança, fazendo músicas para seu teatro de marionetes, em casa. Músicas criadas entre seus 15 e 16 anos estão guardadas até hoje. “Blanco”, feita a partir de um poema de Octavio Paz, foi criada nessa época e terminou sendo gravada. "O Nelsinho falava: ’Você vai ser uma grande compositora’", conta ela. “Composições completas, com letra, tudo, tenho desde antes da viagem para a Itália.”
MAIS . . . A produção de “Mais” significou para Marisa o primeiro mergulho fundo no universo dos estúdios. “Gosto muito, lá você tem os recursos que não tem ao vivo". No disco, Marisa fez a ponte de Arto para os Titãs, que por sua vez a pôs em contato com Sakamoto, John Zorn, Bernie Worrell e Naná Vasconcelos.
PALCO . . . Apesar de produzir obras que funcionam tão bem no palco quanto em disco, Marisa acha que as duas coisas são completamente diferentes; nada é criado em estúdio tendo os limites do palco em mente, da mesma forma que, ao vivo, tudo pode e deve ser recriado.
ATITUDE . . . Marisa reconhece que, com o segundo disco, assumiu uma atitude mais, digamos, “incisiva”. Ou, como ela diz: “um disco de afirmação”. “A própria pose na foto da capa tem a ver com isso. Era como se eu dissesse, ‘olha aqui, não sou só cantora, não sou só aquilo, olha aqui, é MAIS’”. E veio polêmica no embalo: as críticas se dividiam entre “obra prima” e “a maior droga do universo”. “Mas ninguém ficou indiferente”. “Mais” vendeu mais e mais rápido que “MM”.
GERAÇÃO . . . Falando de seu processo criativo, da forma como começa a conceber um novo disco muitas vezes no meio da turnê de um outro, Marisa lembra da parceria com pessoas como Arto Lindsay, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. "Nos vemos sempre, nos falamos, morremos de saudade uns dos outros, mas não convivemos, não nos encontramos tanto. É um privilégio quando estamos juntos, à disposição um do outro. Nas raras vezes em que isso acontece, Somos capazes de fazer duas, três músicas num dia.” eu, Arto, Arnaldo e Carlinhos juntos, o assunto é esse, criação, criação. Mas o espectro de relações é maior: ela cita Cássia Eller, Pepeu, Moraes Moreira, Lucas Santtana... Marisa gosta é de provocar um diálogo entre estilos, tempos, turmas...
BROWN . . . A aproximação aconteceu entre "Mais" e "Cor de Rosa e Carvão". Marisa trabalhava com Arto em Nova York e chegavam fitas de Brown,que queria ser produzido pelo amigo americano. Ela sabia quem ele era desde que o havia visto com Caetano na turnê de "Estrangeiro, desde a Timbalada, mas ainda não tinham sido apresentados. "Conheci o trabalho dele, com aquelas fitas, antes de conhecê-lo. Marisa achou o que ouviu maravilhoso. Encontraram-se naturalmente, e começaram a compor juntos."Ele gosta da exuberância. Marisa fala do barroco do dadaísmo em Carlinhos como se fosse a manifestação de uma força da natureza, cita as obras sociais que ele promove no Candeal, em Salvador, diz que produzir "Omelete man para ela foi um aprendizado.
ZÉFIRO . . . O óbvio seria pôr, na capa de "Barulhinho Bom, algo sofisticado, alguma coisa como uma foto luxuosa, colorida, de Marisa em cena, feito diva; e ela queria outra coisa, uma imagem que remetesse à cultura popular brasileira ("eu sou popular, o que faço não é inacessível intelectual ou esteticamente). Daí, Zéfiro. Marisa acha a obra do lendário cartunista erótico "rica graficamente, bonita". Isso a despeito da carga sensual dos quadrinhos de Zéfiro, que nada têm a ver com "Barulhinho Bom". "Não acho nada disso. Zéfiro é ingênuo, hoje as pessoas sorriem carinhosamente ao ver aquilo. Não é indecente, é engraçado. E a história dele é linda, foi parceiro de Nelson Cavaquinho em ’Flor e espinho’". Em homenagem a Zéfiro, ou Alcides Caminha, Marisa cantou "Flor e espinho" na inauguração de uma lona cultural no subúrbio de Anchieta, no Rio. "O mais bacana nele é isso, ninguém sabe direito quem era o Zéfiro, o que ele fazia. É lindo, um artista sem vaidade".
DAVI . . . "Memórias, crônicas e declarações de amor traz a participação intensa de Davi Moraes, sempre ao lado de Marisa. "É um luxo trabalhar com o Davi, conta ela, que havia contado com a colaboração dele em "Barulhinho bom e na produção de "Alfagamabetizado, de Brown. Multinstrumentista, Davi trouxe como herança paterna o som dos Novos Baianos para o universo de Marisa. E ela reconhece que sua influência, hoje, está além de seu talento como músico ou de sua habilidade em estúdio. "Amigos que conheci através dele foram muito importantes dentro de um movimento de reciclagem artística, diz ela.
MÚSICA . . . Desde o lançamento de "Barulhinho bom”, Marisa fez shows, produziu o disco “Omelete man”, de Carlinhos Brown, uma faixa de "Café Atlântico”, de Cesaria Evora, participou de diversos projetos, lançou seu selo, o Phonomotor, produziu o CD "Tudo azul”, da Velha Guarda da Portela. Em 2000, lançou "Memórias, crônicas e declarações de amor", disco que já vendeu mais de um milhão de cópias (Disco de Diamante) e lhe rendeu diversos prêmios: Grammy Latino 2001 de melhor álbum pop contemporâneo brasileiro, VMB 2000 e 2001 de melhor videoclipe de MPB (por “Amor I love you” e “O que me importa”, respectivamente) e Prêmio Multishow 2001 de melhor CD, dentre outros.
SAMBA. . . Sua paixão pelo samba resultou em mais dois lançamentos do selo Phonomotor em 2002: os discos solos de estréia de Argemiro Patrocínio e Seu Jorge do Cavaquinho, dois lendários sambistas da Velha Guarda da Portela que, apesar de estarem na faixa dos 80 anos, nunca tinham lançado trabalhos individuais. Marisa se encarregou da produção do álbum de Argemiro.
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